quinta-feira, 25 de julho de 2019

PORQUE HOJE É O FUTURO PASSADO

Escrito entre 07 de janeiro a 23 de julho de 2019. 
Postado de 25 de julho a 21 de outubro de 2019. 


SINOPSE:
Como seria se você tivesse lembranças de uma vida que não é a sua? 
Quando pequena Frederica confundia. Na verdade, não sabia distinguir o que era real ou não. Era comum afirmar que seu nome era Glorinha. Isso e o pavor de tempestades, raios e trovões. Não um medo normal, mas um pânico que a deixava fora de si. Segundo a mãe: “Como se estivesse possuída.” A junção de tudo isso fez com que os pais procurassem a ajuda da primeira psiquiatra quando Frederica completou seis anos. Aos vinte e oito anos, continuava acompanhada dos mais variados medicamentos e terapias, sem que aquilo jamais deixasse de persegui-la. Até que um dia, assistindo a um programa de turismo na TV, deparou-se com uma cidade no interior do Rio de Janeiro da qual se lembrava e conhecia muito bem. Mas não naquela vida. Com a ajuda da avó, embarca para Barra Alta do Paraíso disposta a encontrar a verdade e a solução para tudo aquilo.

“Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha sua vã filosofia”. A citação de Shakespeare se encaixa perfeitamente em  PORQUE HOJE É O FUTURO PASSADO, o mais novo romance de Diedra Roiz. Nem tudo pode ser explicado pela razão ou pelo nosso limitado conhecimento. Laços de amor, de medo, de revolta, de felicidade nos ligam de maneira inexplicável e é a navegar nesse mar do desconhecido que esse romance nos convida. Uma viagem repleta de emoções, sentimentos e surpresas. Encha-se de coragem antes de embarcar. (Carla Gentil)

OBS IMPORTANTES: 
1 - Barra Alta do Paraíso, assim como todos os fatos e personagens desta história, são fictícios.
2 - Não existe nenhum fundamento religioso ou doutrinário neste romance, a intenção é contar uma história, pura ficção e nos divertirmos.


MÚSICAS QUE INSPIRARAM A HISTÓRIA:

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Lembrando que... Copiar o texto e apenas trocar o nome das personagens e/ou detalhes da história não é fanfiction, muito menos adaptação, é plágio. E plágio é crime! Por favor, não façam isso, ok?


CAPÍTULO 01

Primeiro a luz piscou, iluminando o céu por uma fração de segundo.
Contou:
- 1...2...3...4...5...
Antes de ouvir a trovoada. 
Estremeceu. E correu ainda mais rápido. Completamente encharcada, levantando os pés com dificuldade, no meio da grama alta molhada. 
Um novo raio riscou o céu.
- 1...2...3...
O estrondo veio mais rápido, anunciando que estava cada vez mais perto. 
Avistou a porta de madeira, mas não conseguiu se alegrar com isso. Mesmo assim entrou e fechou a porta atrás de si. 
Nesse exato momento, a música entrou. Como sempre, com a precisão de um relógio Suíço:
“Olho para chuva que não quer cessar
Nela vejo o meu amor
Esta chuva ingrata que não vai parar
Pra aliviar a minha dor...”
Junto com a voz, muito doce, chamando-a:
- Glória... 
Sacudiu a cabeça de um lado para o outro, em negação. Tentou falar, mas não conseguiu emitir nem um som. 
Começou a suar frio, lutando inutilmente contra o corpo petrificado, que não se movia. Sabendo perfeitamente o que se seguiria.
A presença atrás dela... Tão perto que sentiu o hálito, antes mesmo de ouvir o sussurro:
- Glorinha...
As mãos a tocaram, lhe tapando o nariz e a boca e, depois, escorregaram, descendo numa carícia sádica e macabra por seu rosto. 
Gélidas. Cadavéricas. Assustadoras.
Ao redor de seu pescoço, sufocando-a, apertando com mais e mais força.
Em meio às trovoadas, o barulho da chuva caindo no telhado de zinco e a evocação que incessantemente se repetia:
- Glória... Glória... Glorinha... 


Acordou com um grito lancinante.
Demorou menos de um segundo para compreender que o som tinha vindo dela mesma, antes da porta se abrir e a mãe surgir:
- Frederica?
Nem um pouco surpresa.
Aquilo era o normal. Há anos se repetia. Frederica sequer se lembrava da primeira vez que tinha acontecido.
O mesmo sonho, desde sempre.
- Tudo bem, mãe. Eu já acordei.
A preocupação da mãe era visível e compreensível:
- Mas... Não está chovendo.
Ambas sabiam ao que ela se referia. Pois desde bebê, Frederica acordava aos gritos... Sempre que chovia. Só que nos últimos tempos, a tempestade parecia estar dentro dela. 
- Tem piorado? É isso?
Muito mais pela própria tranquilidade do que pela da mãe, mentiu:
- Não. Fazia tempo que não acontecia.
Morar com os pais poderia atrapalhar, fazer com que continuar escondendo a verdade se tornasse complicado, se os anos de prática não a tivessem tornado... Quase uma perita:
- Desde que o Dido se foi, tem sido... Difícil.
Desculpa perfeita, que a mãe aceitou de imediato:
- Ah, minha querida...
Frederica sentiu-se culpada, não por enganá-la colocando a culpa na morte do cachorro, mas por ser a falha na vida perfeita dos pais. O único pesadelo que a mãe tinha.
Já era suficiente, jamais a preocuparia, confessando que a perda do melhor e único amigo não tinha nada a ver com o fato de que agora sonhava, quase todos os dias. Com o cheiro da chuva, o som das gotas, a voz, as mãos e o lento sufocar, tão conhecidos.
As primeiras recordações que tinha, antes mesmo da mãe, do pai e da própria vida. Como se estivesse vivendo uma existência que não lhe pertencia.
Quando pequena confundia. Na verdade, não sabia distinguir o que era real ou não. Algumas vezes, quando estava distraída e perguntavam seu nome, respondia:
- Glorinha.
Isso e o pavor de tempestades, raios e trovões. Não um medo normal, mas um pânico que a deixava fora de si e que fazia Frederica se esconder debaixo das camas, dentro dos armários, cada vez que chovia. Os olhos fechados, as mãos tapando com força os ouvidos. Nas poucas vezes em que tentaram tirá-la desse estado tinha reagido. Lutando, gritando e chutando. Segundo a mãe: “Como se estivesse possuída.”
A junção de tudo isso fez com que os pais procurassem a ajuda da primeira psiquiatra quando Frederica fizera seis anos. Estava completando vinte e dois anos dos mais variados medicamentos e terapias. Sem que aquilo jamais deixasse de persegui-la.


Sozinha em casa, sentada no sofá da sala no meio de uma das tardes intermináveis em que esperava a mãe e o pai voltarem do trabalho, Frederica procurou inutilmente ocupar-se, pois a mente e o corpo entorpecidos pelos remédios que tomava a impediam de se concentrar no que quer que fosse, o que a levava à repetição contínua e incessante de trocar os canais da TV, imersa na culpa de, com 28 anos, ainda ser uma inútil. Não era sem dor e pesar que atravessava os dias, carregando a consciência de que era, sempre tinha sido um erro, uma falha, um peso, a causa de inúmeras abnegações de seus progenitores. Era a sua incapacidade de ser uma pessoa normal e produtiva que impedia que a mãe se aposentasse, que o pai trocasse de carro, que os dois viajassem, saíssem com amigos, se divertissem e aproveitassem a vida de forma tranquila como mereciam. Não que os dois a cobrassem. Pelo contrário, não era amor que faltava na vida de Frederica. Tanto os pais quanto a avó materna, Ilma - de quem inexplicavelmente, era a neta preferida - faziam questão de demonstrar o quanto ela era querida. Apoiavam-na, de uma maneira que Frederica não compreendia, na qual não via o menor sentido. Nem poderia ser de outra forma, pois só o que enxergava ao olhar para si mesma era o fracasso e o desperdício que considerava sua própria vida.
Um relance de olhos para a TV interrompeu a corrente de auto piedade e puxou  a atenção de Frederica para a imagem na tela. A casa antiga com um corredor de altas palmeiras na frente lhe causou uma impressão de reconhecimento profunda, apesar de inteiramente incoerente. Não era a primeira vez que acontecia, mas sem sombra de dúvida, daquela vez a sensação de quase lembrar... Algo que não fazia parte de sua vida - ao menos não da atual - a atingiu com muito mais força do que das outras. 
“Dejà vu”, muitos diriam. Mas Frederica sabia, intuía que não era nem podia ser só isso. A respiração descontrolada, os batimentos cardíacos acelerados, o suor frio deixavam claro o quanto sua reação era real, material, física.
Piscou, tentando inutilmente afastá-la. Fechou os olhos e escutou o que a voz do narrador do programa dizia: 
“ A Fazenda Santa Fortunata* funciona hoje como um hotel histórico de luxo. A atual sede foi erguida em 1853 e nela destaca-se um imponente alpendre, de influência italiana, encimado por um frontão que é sustentado por colunas de madeira trabalhada. Considerada a “Joia de Barra Alta do Paraíso*”, o casarão com mais de 2.300 metros quadrados possui 59 cômodos e 102 janelas.”
Não pensou, foi seguindo única e exclusivamente a necessidade imperativa que estava sentindo, que tateou à procura do celular. Encontrou o aparelho perdido entre as almofadas do sofá. A despeito do tremor que a tomava, a mão foi rápida, moveu os dedos com uma rapidez e agilidade que não lhe era usual. 
Obviamente, a busca lhe rendeu apenas parte da informação que desejava: “Cidade pequena, tranquila e hospitaleira localizada no Vale do Café, Barra Alta do Paraíso* se destacou na cafeicultura do estado do Rio de Janeiro no Século XIX. Memórias do Brasil Colonial ainda podem ser encontradas na Igreja da Matriz e na histórica Fazenda Santa Fortunata*.”
Nesse exato momento, o telefone começou a tocar. Só podia ser ela, a única que pessoa que conhecia que ainda utilizava o aparelho convencional e, exatamente por isso, a mãe de Frederica o mantinha. Levantou-se do sofá e atendeu de imediato:
- Oi, vó.
Não teve tempo de dizer mais nada antes da avó materna perguntar: 
- Você está bem?
A voz de dona Ilma soou absolutamente aflita. Frederica respondeu rápido também:
- Sim, estou. 
O silêncio que se seguiu deixou claro para Frederica:
- Você teve mais um dos seus pressentimentos.
Desde que se lembrava, ou até mesmo antes disso, a avó parecia intuir o que se passava com ela, a ponto de sempre se fazer presente em seus momentos de crise.
- Dessa vez foi diferente.
Incontestável, pois ao contrário de todas as outras vezes, nada havia acontecido.
- Diferente como?
O estranhamento foi idêntico, mais uma coisa a uni-las.
- Eu não sei explicar.
 Frederica fez questão de acalmar a avó:
- Mas eu estou bem. Pode ficar tranquila.
Não que precisasse. Tinha plena consciência de que ela sabia e sentia, sem que houvesse necessidade de falar. Foi de um jeito bem mais leve, quase ameno, que dona Ilma insistiu:
- Não está precisando de nada mesmo? Tem certeza, minha querida?
Frederica aproveitou para lançar:
- Na verdade...
Dona Ilma riu com a mais sincera felicidade:
- Ah, eu sabia! 
A despeito do quanto adoraria satisfazer todas as vontades dela, a neta nunca lhe pedia nada.
- É só...
A hesitação de Frederica levou a avó incentivá-la:
- O quê, Fredinha? 
O apelido carinhoso concedeu à Frederica a percepção do quanto, para ela, a infância não havia terminado. Estava ali, marcada a ferro e fogo, a dependência integral que era a sua realidade.
- Não é nada, é uma bobagem.
A tristeza que a tomou não passou despercebida, a preocupação retornou para a voz da avó:
- Seja o que for, pode me falar.
Uma vez mais, apressou-se em tranquilizá-la:
- Acabei de ver uma cidade histórica num programa turístico e fiquei com vontade de conhecer. Só isso.
A informação deixou dona Ilma aliviada e animada. Afinal, raramente a neta se interessava por algo, seu estado mais habitual era a apatia. Querer conhecer um lugar fora do Rio de Janeiro, para quem sequer saía de casa era mais inédito ainda. Um sinal de progresso, era o que gostaria que fosse. Se dependesse dela, algo que Frederica concretizaria:
- Quem sabe poderíamos ir juntas, só eu e você? Que cidade é? Será que eu conheço?
O apoio da avó era fundamental, pois Frederica não conseguiria nem poderia ir sozinha. Informou com uma empolgação que lhe era completamente desconhecida:
- Se chama Barra Alta do Paraíso*.
Dona Ilma ficou muda do outro lado da linha. Frederica só foi capaz de dar um único significado a ausência de palavras da avó:
- Você conhece?
Demorou um tempo que pareceu uma vida para que ela finalmente respondesse:
- Eu morei em Barra Alta do Paraíso*... Durante boa parte da minha adolescência e toda a minha infância.
Em princípio, Frederica não deu muita importância:
- Então talvez por isso me pareceu tão familiar.
Compreendeu a gravidade pelo tom austero, duro, carregado de pesar que nunca ouvira a avó usar antes:
- Não. Eu nunca te falei. Nunca contei isso para ninguém, porque eu gostaria de poder apagar, esquecer, fingir que nunca aconteceu.
Alguma coisa muito mais forte do que Frederica, que ela sequer tentaria, pois jamais conseguiria explicar, a impeliu a questionar:
- Isso o quê?
Exigiu uma explicação, apesar de desconhecer o motivo, precisava saber:
- O que aconteceu?
De imediato, Ilma reconheceu que não se tratava de uma curiosidade normal, pelo próprio ímpeto com que Frederica a abordara. Não tentou encontrar justificativas na razão, seguiu o que a intuição lhe soprava:
- Não pode ser pelo telefone. Vou até aí para conversarmos pessoalmente.

*Barra Alta do Paraíso, assim como todos os fatos e personagens desta história, são fictícios.

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MÚSICA QUE INSPIROU ESSE CAPÍTULO E A IDEIA ORIGINAL DA HISTÓRIA:


Postado em 25 de julho de 2019 às 18h.

Aviso sobre direitos autorais Copyright © Diedra Roiz Todos os direitos reservados. Você não pode copiar (seja na íntegra ou apenas trechos), distribuir, disponibilizar para download, criar obras derivadas, adaptações, fanfictions, nem fazer qualquer uso desta obra sem a devida permissão da autora.

CAPÍTULO 02

Em menos de um par de horas depois, dona Ilma chegou. Assim que colocou os olhos nela, Frederica viu que estivera chorando, mas não disse nada a respeito. Mesmo se quisesse, não teria tempo, pois a avó a beijou, a abraçou longamente e depois a puxou pela mão até o sofá, onde se acomodaram lado a lado. Olhando nos olhos neta, Ilma foi direta:
- Você sabe que eu perdi uma irmã, não sabe?
Com um gesto de cabeça, Frederica assentiu. Sabia muito por alto, através de comentários que tinha escutado de forma furtiva ou involuntária. Nunca nenhuma informação concreta lhe havia sido passada. Na verdade, a tia avó era um assunto interdito, que todos na família evitavam.
Arriscou um incerto:
- Ela morreu, não é?
Deixando claro para a avó que ela desconhecia a verdade:
- Presumo que está morta, porque...
Antes de completar, fitou Frederica de um jeito que ela foi incapaz de compreender:
- Glorinha fugiu de casa, há mais de 50 anos e não tivemos mais notícias dela.
O nome. Foi nisso que Frederica se apegou, pois era conhecido demais para passar despercebido ou permitir que ouvisse o resto que foi dito:
- Glorinha?
Dona Ilma olhou profundamente para Frederica enquanto falava:
- Minha irmã Glória... Maria da Glória. Era dois anos mais velha do que eu. Nós éramos muito próximas. Mesmo assim, ela nunca me falou e eu também não desconfiei de nada. Fiquei decepcionada, com muita raiva, me sentindo traída e enganada porque eu realmente acreditava que não havia segredos entre nós. Foi um choque quando ela sumiu, logo após completar dezoito anos, deixando apenas essa carta para os nossos pais.
Estendeu o papel amarelado que retirou da bolsa para a neta, que hesitou antes de finalmente segurá-lo entre os dedos. Além das inúmeras marcas que o tempo havia deixado na missiva, estava rasgada em pedaços cuidadosamente colados com fita adesiva transparente. 
Frederica respirou fundo, buscando ar, antes mesmo que lhe faltasse e, só depois, numa total descontinuidade de tempo, apreendeu as letras, palavras e frases que se formaram em sua mente antes mesmo que as visualizasse, deixando uma única e inquestionável certeza: não era a primeira vez que lia aquela mensagem.
Quando terminou, ergueu os olhos e encontrou os de Ilma fixos nela, como se esperasse algo mais. Se havia, Frederica não estava nem queria estar preparada, muito menos saber o que seria. 
Devolveu a carta que parecia lhe queimar não as mãos, mas dentro do peito, no estômago, nas vísceras. Algo que a fez imediatamente pensar: “Preciso do meu remédio”, apesar da sensação de que não era disso que se tratava, nenhuma substância química resolveria. Teve certeza quando a avó a olhou nos olhos e soprou:
- Glória?
Um chamado que causou uma dor fininha que a puxou para trás, para uma luz que piscou e a cegou em tremores convulsivos, enquanto se repetia, desta vez vindo da presença atrás dela, tão perto que sentiu o hálito, antes mesmo de ouvir o sussurro doce e inteiramente conhecido:
- Glória... Glorinha...
Logo em seguida, os gritos. Mergulhada num transe incontrolável, que a fez tombar e perder o controle do corpo e da consciência completamente, Frederica foi incapaz de perceber que era ela mesma quem os tinha emitido.


Ilma jamais seria capaz de nomear o turbilhão que a tomou ao ver os olhos da neta tremularem e virarem antes dela emitir uma série de gritos que só não eram mais assustadores do que a forma como ela caiu no chão e começou a se sacudir e se contorcer. À primeira vista, para alguém desavisado, parecia algo físico. Uma convulsão, talvez epilepsia. 
Para Ilma não. 
Pois durante anos ela havia pesquisado, procurado e estudado. Apesar disso, não estava absolutamente preparada. Fazia tempo, alguns anos que sabia, não concretamente, claro. Não passava de uma suspeita, uma intuição, uma sensação longe de ser certeza, que muitas vezes a fazia duvidar da própria sanidade. No caminho que percorrera nessa busca tinha presenciado o quanto as pessoas – inclusive ela mesma – são capazes de acreditar em qualquer coisa, por mais absurda e improvável que seja, na ânsia de uma resposta, um consolo, um contato com os entes amados perdidos. 
Mas desde que Frederica nascera ela sentia uma estranha e inexplicável conexão, um amor mais forte até do que o que nutria pela própria filha. 
A neta tinha sido, de muitas maneiras, um bebê difícil. E uma criança mais problemática ainda. Por mais estranho que pudesse parecer, algo que Ilma tinha acabado por nomear de sexto sentido a fez perceber - antes mesmo da primeira  das muitas vezes em que a menina tinha insistido em ser chamada de Glorinha, quando ainda era muito pequena, pequena demais para ser algo inventado por ela - que aquilo vinha de outra pessoa ou de outra vida. Desde então, Ilma esperava por respostas, mesmo sem saber se algum dia as teria.
Óbvio que sua intenção não era, de forma alguma, manifestar aquilo na pessoa que mais amava no mundo. Enquanto se ajoelhava ao lado dela e amparava a cabeça de Frederica para que ela não a batesse no chão arrependeu-se profundamente por ter se deixado levar pelo próprio egoísmo. Fechou os olhos e procurou dentro de si mesma. Uma prece, mesmo sem sentimento ou fé, palavras nas quais pudesse se apegar e acreditar, mas não encontrou nada além do mais profundo vazio. 
Olhou para a neta, inclinou-se sobre ela, as lágrimas caindo em profusão sobre o rosto já menos convulsionado, enquanto a chamava:
- Frederica... Frederica...
De súbito, tão repentinamente quanto havia começado, o acesso parou e Frederica ficou completamente imóvel em seus braços. Antes que Ilma pudesse fazer qualquer coisa, a filha adentrou correndo na sala:
- O que aconteceu?
Ajoelhou-se ao lado das duas e, acariciando o rosto de Frederica, começou a chamá-la com uma suavidade inversamente contrária à preocupação e o nervosismo em que se encontrava. Não era a primeira nem seria a última vez que encontrava a filha inconsciente e caída no chão, por isso sabia perfeitamente que gritar ou sacudi-la não adiantaria, pelo contrário, só serviria para piorar a situação. Deixou escapar um suspiro aliviado ao vê-la piscar e, alguns segundos depois, abrir os olhos.
Sentindo-se inteiramente perdida, Frederica voltou devagar. Bastou um único olhar para as duas mulheres debruçadas sobre ela para saber onde estava. Situar quem era já não foi tão fácil. Precisou ouvir:
- Frederica?
Para afinal tomar ciência de que estava olhando para a mãe e a avó. No entanto, quando seu olhar cruzou com o da mulher mais velha ficou claro que o segredo que agora dividiam jamais poderia ser compartilhado. Por isso, quando a mãe perguntou o que havia acontecido, mentiu:
- Não sei, não lembro de nada.
Absolutamente inconfessável, a verdade era a última coisa que poderia dizer, pois nem para ela mesma parecia coerente, muito menos real. 
Sentou-se devagar, com a mesma tranquilidade com que comunicou à mãe que iria para o quarto descansar e pediu para a avó acompanhá-la.
Assim que Ilma fechou a porta do quarto de Frederica atrás de si, percebeu que algo havia mudado, pois o olhar e a voz da neta estavam completamente diferentes ao fitá-la e ao dizer, com a segurança que antes lhe faltava:
- Eu tinha um anel igual ao seu na minha mão direita. Dobrei a carta e a coloquei em um envelope endereçado aos nossos pais. Deixei o envelope em cima da mesa da sala. Uma mesa de madeira redonda, com uma tolha de renda branca e um vaso de porcelana com flores azuis em cima.
A emoção estava claramente expressa na voz de Ilma:
- Era o vaso preferido da mamãe.
Por mais improvável e impossível que fosse, já não havia dúvida:
- Glória?
Não havia dúvida alguma, a pergunta foi muito mais retórica. Mesmo assim, Frederica faz questão de responder:
- Sim, sou eu.
Abraçaram-se e choraram juntas a saudade e a distância de uma existência inteira. No entanto, não era simples, muito menos fácil aceitar ou compreender. Acima de tudo, uma dúvida última permanecia:
- Mas como? O que aconteceu? Quando você...?
O olhar da neta mudou, voltou a ser o de sempre. Frederica também não possuía as respostas ainda:
- Eu não sei. Sempre estiveram aqui. Essas imagens e lembranças incompreensíveis, mas só agora eu comecei a entender, ou melhor... Eu não compreendo, na verdade acho que enlouqueci de vez.
As lágrimas escorreram, sem que fosse capaz de impedi-las. Um instante em que se deu conta pela primeira vez de que tudo que acreditara durante aqueles 28 anos era baseado em mentira e erro. Em sua suposta insanidade estava contido um universo de lucidez. Ilma pensava o mesmo:
- Não é nem nunca foi loucura. Você sabe e eu sei.
A despeito do medo que a realidade absolutamente inacreditável imprimia, a necessidade de encará-la era imprescindível. Devia isso a si mesma:
- Eu preciso voltar a Barra Alta do Paraíso*.

*Nota sobre o capítulo: Barra Alta do Paraíso é uma cidade fictícia.

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MÚSICA QUE INSPIROU O CAPÍTULO:


Postado em 29 de julho de 2019 às 18h.

Aviso sobre direitos autorais Copyright © Diedra Roiz Todos os direitos reservados. Você não pode copiar (seja na íntegra ou apenas trechos), distribuir, disponibilizar para download, criar obras derivadas, adaptações, fanfictions, nem fazer qualquer uso desta obra sem a devida permissão da autora.

CAPÍTULO 03

Sentada ao lado de Ilma no ônibus, Frederica fechou os olhos e fingiu que dormia. Os dias que antecederam aquele haviam sido... 
Não existiam palavras capazes de definir o que sentia. Não fazia ideia de como ou o que convencera os pais, mas surpreendentemente, após uma breve objeção inicial, eles haviam permitido a viagem e agora as duas estavam ali, a caminho de Barra Alta do Paraíso. Tampouco imaginava o que encontraria, muito menos do que aconteceria quando chegassem lá. 
Subitamente, a densa fumaça cinza que emoldurava sua existência se esvaíra mas ainda assim não era capaz de enxergar mais do que vultos e sombras, imagens que não sabia se um dia seriam significadas. Permanecia divagando, a memória compartilhada em fragmentos, resquícios que não se encaixavam nem formavam qualquer linearidade. Exatamente como sempre, muito mais uma sensação, a memória que tentava inutilmente captar. 
Findas as três horas que a ansiedade fez parecer a eternidade, seguiu Ilma – já não conseguia pensar nela somente como sua avó – para fora do ônibus. 
Depois que pegaram as malas, trocaram um olhar que traduzia o misto de expectativa, angústia e incerteza em que as duas se encontravam. De forma absolutamente contrária à passividade que lhe era habitual, Frederica segurou a mão de Ilma e afirmou muito mais para si mesma:
- Agora não tem mais volta.
A concordância de Ilma se deu com um aceno afirmativo de cabeça, seguido de um determinado:
- Vamos.
Seguiu na frente, em direção às respostas que buscara durante toda a sua vida. Assim que ultrapassou o portão que separava a plataforma de desembarque da parte central da pequena rodoviária, foi abordada por um jovem que se aproximou cautelosamente para não a assustar:
- Com licença... A senhora é a dona Ilma?
Na mesma hora identificou:
- Ricardo?
O neto de Sônia - sua melhor amiga de infância e adolescência, com quem recentemente recuperara o contato através do facebook – sorriu para as duas:
- Sejam bem-vindas! 
Apressou-se em pegar as duas malas de rodinhas que Ilma e Frederica puxavam. As duas ofereceram uma resistência cerimoniosa, que foi facilmente vencida por ele. Sempre solícito, Ricardo indicou:
- Por aqui.
Antes de guiá-las até o estacionamento onde deixara seu carro – na verdade, um táxi. Perguntou:
- Fizeram boa viagem?
Enquanto os dois travavam uma conversa cordial, a atenção de Frederica se voltou para observar à sua volta. Decepcionou-se ao perceber que o local lhe parecia inteiramente desconhecido e não lhe despertava qualquer sensação ou memória.
Assim que entraram no carro - Ricardo no banco do motorista, a avó na frente ao lado dele e Frederica atrás - Ilma sugeriu:
- Faça o favor de ligar o taxímetro.
A despeito do tom bem-humorado que ela usou, Ricardo protestou com seriedade, firmeza e simpatia:
- De jeito nenhum. Não estou trabalhando, só vim buscar vocês no táxi porque é o único carro que temos. 
Antes que Ilma pudesse replicar, completou:
- Minha avó está ansiosa para revê-la. Ela sempre conta histórias das coisas que aprontava quando era criança e a senhora faz parte de todas elas.
Foi o suficiente para que engatassem uma conversa repleta de risos e nostalgia, permitindo que Frederica se dedicasse a olhar pela janela durante o percurso que durou pouco, alguns minutos depois estacionaram em frente a um pequeno café. 
Assim que saíram do táxi, uma senhora sorridente surgiu de dentro do estabelecimento e se dirigiu de braços abertos para Ilma, que retribuiu o abraço da mesma maneira calorosa. 
Ricardo e Frederica ficaram parados lado a lado, assistindo à cena repleta de emoção e de palavras trocadas numa velocidade que as tornava quase incompreensível para eles. As duas senhoras voltaram a se abraçar e, quando se separaram, enxugaram as lágrimas juntas, rindo e voltando a afirmar uma para outra o quanto estavam felizes com o reencontro. 
Só então pareceram se dar conta de que não estavam sozinhas. Ilma apresentou a neta, enquanto Ricardo pegava as bagagens no porta malas do carro.
Sônia as guiou para o portão na lateral do prédio de dois andares, que abriu dando passagem para uma escada. Subiu explicando:
- Depois que meu marido faleceu, me mudei para cá, fica mais fácil administrar o café morando em cima dele.
A primeira impressão que Frederica teve quando entraram no pequeno apartamento foi a de ter voltado no tempo, pois tudo, cada móvel e objeto parecia ser antigo, o que não lhe causou estranhamento algum, pelo contrário, era muito mais familiar do que deveria. Especialmente as cortinas floridas.
A reação de Ilma foi tão idêntica que, ao ver a amiga de infância olhando fixamente para o tecido, Sônia disse:
- São parecidíssimas com as da sua mãe, não são? Eu sempre amei aquelas cortinas. Não foi fácil encontrar uma estampa similar. Felizmente, voltou a moda. É vintage, como hoje dizem.
Já da porta, Ricardo falou diretamente para a avó:
- Coloquei as malas no quarto de hóspedes. Se precisar de mim, me liga. A Milena já deve estar chegando com as crianças.
Sônia virou-se para Ilma e Frederica com um sorriso tão contagiante que tornou a proposta irrecusável:
- Sei que devem estar cansadas, mas vamos descer um pouquinho, quero muito que vocês conheçam meus bisnetos.
Seguiram Ricardo de volta para a rua onde uma mulher e dois jovenzinhos o esperavam na frente do táxi. Assim que viu o pai, o menino abriu um enorme sorriso, correu para ele e o abraçou. Depois, fez o mesmo com a bisavó. A garota não se moveu, sequer levantou os olhos do celular. 
Com um orgulho evidente, Sônia os apresentou:
- Esse é o Jonas, ele tem 15. E aquela é a Tainá, de 13. Meus queridos, essa é a Ilma, uma grande amiga da bisa, que trouxe a neta dela, Frederica, para conhecer Barra Alta do Paraíso.
Tainá se aproximou e as cumprimentou rapidamente, antes de voltar toda a sua atenção novamente para a tela do aparelho em suas mãos. Jonas continuou abraçado em Sônia, olhou para Ilma de lado, apertando os olhos, como se estivesse ressabiado. Depois, olhou diretamente para Frederica e, como se a reconhecesse, sorriu e se aproximou. Frederica recebeu o abraço afetuoso que o garoto com Síndrome de Down lhe deu constrangida à princípio, mas o conforto e o calor que recebeu naquela acolhida a fez sentir uma felicidade incompreensível, que a levou a corresponder com o mesmo amor que sentiu vindo dele. Naquele momento percebeu e aceitou o quanto de inexplicável existia em sua vida. “Na vida”, corrigiu-se mentalmente, sorrindo de volta para Jonas, que a beijou no rosto e, ato contínuo, caminhou em direção à mulher que se mantinha afastada, observando a cena de longe, numa tentativa de se manter esquecida que se mostrou inútil quando todas as atenções se voltaram para ela.
- Minha querida, perdão! Que cabeça a minha! 
Enquanto continuava se desculpando, Sônia foi até a mulher e a pegou pela mão. 
- Essa é a Milena.
Na mesma hora, Jonas a corrigiu:
- Tia Mile.
Surpreendendo Frederica, que a julgara mãe das duas crianças. Depois de beijar o bisneto no rosto, Sônia prosseguiu:
- Isso mesmo, meu querido. A tia Mile é a irmã mais nova da Patrícia, mãe dos meninos. As duas são netas da Maria Tereza. Você lembra da Maria Tereza, não lembra, Ilma?
Um esgar melancólico, que poderia ser facilmente confundido com um sorriso, desenhou-se nos lábios de Ilma:
- Sim, claro que sim. Como vai, Milena? Como está a sua avó?
Cumprimentaram-se com os dois beijinhos de praxe. Milena respondeu:
- Vovó está bem.
Frederica piscou, tentando inutilmente dissipar o arrepio que subiu por sua espinha quando Ilma afirmou, com a mais indisfarçável melancolia:
- Maria Tereza era a melhor amiga da minha irmã mais velha, Glória.
Aquele nome, a história que continha e que todos na cidade conheciam caiu com todo o seu peso, gerando um silêncio que durou pouquíssimo, apenas a fração de segundo que Jonas levou para gritar:
- Glória!  
Antes que alguém pudesse fazer ou dizer qualquer coisa, o menino repetiu, ainda sem desviar os olhos de Frederica:
- Glorinha!
A dor fininha, tão sua conhecida, puxou Frederica para trás, lançando-a dentro da luz que, como sempre, a cegou e a mergulhou num transe incontrolável, que a fez perder o controle de seu corpo e de sua consciência por completo.
A imagem que surgiu em sua frente era inédita e, ao mesmo tempo, familiar. No entanto, demorou para identificá-la. Só quando a jovem sorriu para ela, irradiando uma felicidade que de imediato a contagiou - tamanho era o brilho daquele olhar e o amor que transbordava e emitia -, que Frederica soube:
- Tei.
Repetiu o nome dela, que começou a se afastar, causando um desespero profundo, que fez Frederica gritar alto. 
O som da própria voz a trouxe de volta. O primeiro contato com a realidade foi Ilma, chamando-a de forma incessante:
- Fredinha... Frederica!
Logo depois, percebeu que estava em um ambiente fechado, sentada em uma cadeira, com todos os olhares fixos nela. Ilma a abraçou e falou em seu ouvido:
- Você desmaiou e nós a trouxemos para dentro do café. 
Depois, virou-se para Sônia, Ricardo e Jonas - que se mantinha abraçado à Milena -, e tratou de tranquilizá-los:
- Ela está bem. Não foi nada. Acontece de vez em quando, por causa da pressão baixa.
A mentira, apesar de absurda, foi imediatamente aceita. Sônia falou num tom absolutamente bem-humorado antes de caminhar em direção ao balcão:
- Nada que um chazinho e alguns biscoitinhos caseiros não possam curar. 
Ricardo perguntou para Milena:
- Onde está a Tainá?
Ela nem precisou pensar, muito menos procurar:
- Lá fora, vidrada no celular. Nem deve ter percebido o que aconteceu, muito menos que entramos.
Ele riu:
- Podia acabar o mundo e ela não ia perceber. 
Após sacudir a cabeça em reprovação à filha, colocou a mão no ombro de Jonas:
- Ainda bem que você não é como a sua irmã.
E beijou Milena no rosto em despedida:
- Obrigado por ter trazido eles. Diz pra sua mãe que amanhã eu deixo os dois em casa de noite, por volta das oito.
A anuência de Milena se deu sem palavras, através de um gesto simples, com o polegar para cima. Ele chamou o filho:
- Vamos, amigão?
Em resposta, Jonas beijou a tia, soltou-se dela e foi até Ilma e Frederica:
- Tchau!
Falou antes de abraçar e beijar primeiro Ilma e depois Frederica, com um carinho tão inegável que se fez instantaneamente recíproco. 
Depois de se despedir da bisavó com mais beijos e abraços, o menino ainda se virou e acenou da porta, antes de sair do café junto com o pai.
- Ele é muito especial, né?
Assim que terminou a frase, Frederica percebeu que poderia ser mal interpretada:
- O que eu quero dizer é...
Com um sorriso tão sincero e simpático quanto o do sobrinho, Milena a impediu de se explicar:
- Eu entendi. E concordo com você, o Jonas tem muito mais luz do que todos nós juntos.
O olhar encontrou o de Frederica e as duas sorriram uma para a outra, em plena concordância, no exato momento em que Sônia voltou, trazendo uma bandeja que depositou na mesa mais próxima, onde arrumou com esmero um bule, um potinho cheio de biscoitos e quatro xícaras.
Milena tentou se esquivar:
- Eu também vou indo, tenho que...
Em vão, pois Sônia jamais permitiria:
- Nada disso, dona Milena! Eu não aceito essa desfeita! Pode vir aqui agora mesmo!
Sem outra alternativa, Milena obedeceu. Sentou-se entre Sônia e Ilma, de frente para Frederica, e se manteve igualmente calada. Não demorou para que Sônia parasse de falar sobre o passado com a amiga de infância e tentasse incluir as duas jovens na conversa.
- Você trabalha com o quê, minha querida?
Pega inteiramente de surpresa, Frederica engasgou com a pergunta. Coube a Ilma salvá-la, com mais uma mentira:
- Ela não está trabalhando, está estudando pra concurso público.
No entanto, a curiosidade de Sônia parecia não ter fim:
- É formada em quê?
Tornando impossível para Frederica esconder o próprio desconforto. Sentindo uma empatia profunda pela outra, Milena fez algo que para ela era inédito - colocou a si mesma na linha de frente:
- Eu não fiz faculdade nenhuma. E nem pretendo fazer.
Funcionou, pois Sônia pareceu se esquecer de Frederica inteiramente:
- Minha querida, nem todo mundo nasce com um dom como o seu.
Para espanto de Ilma, ao invés de aproveitar para se manter calada, Frederica não conseguiu conter um inusitado interesse:
- Dom? Que dom?
Foi com um prazer indisfarçável que Sônia afirmou:
- A Milena é uma doceira de mão cheia. A melhor da região. 
A jovem sorriu, com uma timidez constrangida:
- Ela está exagerando.
Frase que Sônia rebateu, obviamente:
- É a mais pura verdade, não seja modesta. As pessoas vêm de longe pra comprar as maravilhas que essa menina faz. 
Uma vez mais, Milena contestou o elogio:
- Tudo que eu sei aprendi com a minha avó.
Frederica ergueu os olhos, buscou e encontrou os de Milena:
- A Tei?
Nenhuma das duas desviou o olhar, nem mesmo quando Sônia disse:
- Ninguém chama a Maria Tereza assim faz tempo.
Foi ainda com olhos nos de Frederica que Milena falou:
- Ela odeia esse apelido.
Algo mais forte que Frederica a fez questionar:
- Por quê?
Sem hesitação alguma, Milena soltou a informação:
- Faz parte de um tempo que ela quer esquecer.
Mas não era, nem de longe, o que Frederica desejava e precisava saber.

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MÚSICA QUE INSPIROU O CAPÍTULO:


Postado em 05 de agosto de 2019 às 18h.

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CAPÍTULO 04

O primeiro pensamento de Milena ao acordar, antes mesmo de abrir os olhos, foi sobre Frederica. Não existia qualquer explicação para o fascínio que a estranha forasteira produzira. Afinal, não havia nada demais, nenhuma beleza ou sex appeal fora do comum nela. Na verdade, a outra parecia frágil, infantil quase. E nem um pouco lésbica. 
Mas algo em seus olhos, uma coisa que Milena não sabia nomear, a tornava inesquecível, tinha adormecido pensando no que poderia estar contido por detrás daquele olhar.
Neste ponto de suas divagações, Milena riu, chutou as cobertas e se sentou na cama, tentando colocar a loucura de lado: “Estou precisando de sexo, com alguém que não seja eu mesma. Só isso”.
Explicação que parecia muito mais plausível. Achar a desconhecida interessante apenas por se tratar de “carne nova no pedaço” e por estar celibatária há meses.
Enquanto desligava o ar condicionado e arrumava a cama, se prometeu alguns dias de folga no Rio de Janeiro, onde poderia encontrar mulheres querendo o mesmo que ela: sexo casual, anônimo e descomplicado. Coisa absolutamente inviável numa cidade pequena onde todas as pessoas se conheciam desde sempre, como acontecia em Barra Alta do Paraíso.
A despeito do incômodo que trazia por dentro, seguiu sua rotina diária, fez um desjejum caprichado, vestiu uma roupa de treino, colocou os fones no ouvido e, já ouvindo a playlist que tinha gravado no celular especialmente para suas corridas matinais, saiu de casa após se alongar no quintal. 
Passou pela casa da mãe, que ficava na frente, no mesmo terreno e acenou para Jonas. Como toda manhã, o sobrinho estava na janela da cozinha esperando-a passar. Foi quando fechou o portão atrás de si que decidiu atender a um desejo legítimo, mas sem o menor sentido, de maneira irracional e impulsiva, como ela jamais agia. Mudou o percurso que sempre seguia, dobrou à direita na pracinha da Matriz, até a rua principal, em direção ao café de dona Sônia, onde poderia encontrar a mulher que parecia gravada em sua mente.


Frederica despertou antes mesmo do dia clarear. Na verdade, a ansiedade em que se encontrava, somada à diminuição por conta própria da dosagem dos medicamentos que tomava desde sempre havia obtido o resultado esperado. Tinha dormido pouquíssimo, quase nada. Mas estava determinada a livrar-se dos remédios, atingir um ponto onde não lhe fizessem falta. 
Vestiu-se respeitando o silêncio absoluto da casa e Ilma, que ressonava profundamente na cama ao lado. Saiu do quarto apenas para confirmar o que já sabia: dona Sônia também não estava acordada. 
Tentou inutilmente navegar na internet, mas o celular estava praticamente fora de área. Lembrou-se então que a amiga da avó lhe informara na véspera que o wifi funcionava melhor no andar de baixo, por isso desceu, ficou de pé na calçada, na frente da porta do café fechado e começou a procurar mais informações sobre Barra Alta do Paraíso. Uma coisa levou a outra e, do guia turístico chegou ao guia cultural da cidade, que a levou diretamente para a página de “Doces Duarte - o ponto certo para as mais variadas delícias caseiras difundidas ao longo de três gerações, com direito a provas de cortesia.”
Frustrou-se ao perceber que o que procurava – uma foto de Maria Tereza – não constava no site. Descartou rapidamente as imagens maravilhosas de doces diversos, de dar água na boca de qualquer mortal, para dar atenção ao que realmente lhe interessava: 
“Criado pela senhora Maria Tereza Duarte, o tradicional ponto de venda e fabricação de doces é hoje dirigido por sua neta Milena Duarte Amaral, que aprendeu com a avó as técnicas e segredos para atingir o ponto certo destas variadas delícias quando, criança e adolescente ainda, já adorava ajudá-la na cozinha. É uma experiência única ir até lá e apreciar um verdadeiro festival de cheiros, cores e sabores dos mais variados tipos de doces que Milena produz, e que os clientes podem provar antes de decidirem quais vão comprar. Os doces caseiros são feitos de acordo com as frutas da estação. O ambiente é simples e acolhedor.”
Neste exato momento, Frederica sentiu algo que não soube definir, como se alguém a chamasse. Ergueu os olhos da tela do celular e deparou-se com Milena correndo do outro lado da calçada. Alguns dias atrás, aceitaria aquilo como mera coincidência, mas naquele instante, todos os seus sentidos pareciam mais apurados e uma certeza plena que nunca tinha experimentado antes a fez ter a consciência de que nada daquilo era por acaso.


Assim que Milena virou a esquina da rua do café de dona Sônia, avistou Frederica parada do outro lado, inteiramente focada no celular em suas mãos. Num primeiro momento pensou em chamá-la, mas logo depois, mais uma vez fugindo por completo da lógica e praticidade que habitualmente regiam sua vida, assustou-se com o próprio pensamento:
“Se for para ser, será. Ela vai me ver. Se não, vou deixar quieto.”
Por mais insano que pudesse lhe parecer, acreditou e confiou naquilo. Seguiu no mesmo ritmo, sem tentar chamar a atenção de Frederica. Já tinha desistido, ia passar por ela, completamente insignificante e invisível, quando, da forma mais inesperada e inusitada, quase por milagre, absolutamente do nada, o olhar dela abandonou o celular e encontrou o de Milena.
Ao vê-la, Frederica sorriu e acenou, fazendo com que Milena sorrisse de volta, sem nem perceber. Na mesma hora mudou sua velocidade e seu percurso. Diminuiu o ritmo ao atravessar a rua em direção à ela. Saudou-a com a mesma empolgação com que foi correspondida. Falaram juntas:
- Bom dia!
Parou - mas não totalmente – na frente de Frederica. Chutou o ar, depois se alongou, equilibrando-se na perna direita com a esquerda dobrada e erguida atrás do corpo, puxando-a pelo tornozelo, enquanto perguntava:
- Tudo bem? O que está fazendo aqui sozinha tão cedo?
A resposta de Frederica demorou o tempo exato que Milena levou para repetir o alongamento do outro lado:
- Estava usando a internet do café, ela não pega lá em cima. Minha avó e dona Sônia ainda estão dormindo.
Permaneceram em silêncio durante um minuto que pareceu durar uma vida. Milena procurando o que dizer, Frederica tentando encontrar uma forma natural de falar o que queria. A sinceridade lhe pareceu o melhor caminho:
- Estava lendo sobre os “Doces Duarte”.
Não foi necessário mais do que isso. Na mesma hora, Milena sugeriu:
- Gostaria de conhecer? Posso vir buscá-la, a hora que você quiser.
Arrependeu-se antes mesmo de proferir a última palavra. Censurou-se mentalmente: “Péssimo, Milena! Ansiosa e solícita demais, mulher nenhuma gosta disso!”. Apenas para, logo depois, perceber que, em se tratando de Frederica, podia esquecer tudo que sabia:
- Eu adoraria!
O tom que ela usou, a forma que a olhou, foram de uma sinceridade desconcertante, despida de tudo, sem sub textos nem entrelinhas, era o que era, apenas o que havia sido dito.
Milena piscou, um pouco surpresa, bastante desconcertada e inteiramente apavorada ao perceber que estava perdida, enfeitiçada, mergulhada num encantamento sem volta nem saídas.  


Quando retornou depois do almoço, como havia combinado com Frederica, Milena teve que fazer um esforço considerável para esconder a decepção que teve ao saber que dona Ilma as acompanharia. Sentiu-se uma idiota completa, pois não era, nem de longe, o que esperava e desejava. No entanto, tinha plena consciência de que em momento algum a outra fizera ou dissera qualquer coisa que justificasse supor que poderia ser correspondida. Sentiu-se duplamente culpada ao ver a empolgação da avó de Frederica que, por uma questão de maior comodidade, sentou-se ao lado dela na frente. 
Frederica se manteve quieta no banco de trás, olhando pela janela o tempo inteiro, tão silenciosa que Milena poderia esquecer que estava lá, se a presença dela não fosse tão evidente, estava fixada em todos os seus sentidos, como uma parte perdida encontrada depois de muito tempo.


Enquanto olhava para as casas que passavam, Frederica tentou minorar o efeito que aquela cidade lhe causava, uma mistura ácida e nostálgica de afeto, pertencimento e um medo visceral, que não fazia absolutamente parte do seu consciente. A única coisa que sabia era que precisava vencê-lo. Fosse o que fosse que carregava consigo, os segredos e mistérios que precisava desvendar e trazer à tona para ter um pouco de... O quê? Paz? Sossego? Uma vida sem surtos, com lembranças que realmente lhe pertencessem, onde não fosse digna de pena, no mínimo.
O carro virou a próxima esquina e imediatamente reconheceu... Primeiro a rua, depois a casa. Virou-se para Ilma e perguntou:
- É aqui, não é?
Não foi necessário mais nada, a avó compreendeu tão de imediato quanto confirmou e pediu para que Milena parasse um pouco ali. Desceram do carro e buscaram uma a mão da outra, a primeira reação que o contato ocasionou foi a percepção de que Ilma estava tão trêmula e emocionada quanto ela ao rever o sobrado onde havia morado durante toda a sua infância e boa parte da adolescência. A segunda, algo que não era novidade para Frederica, mas que foi inteiramente diferente de todas as vezes que acontecera antes. 
Quando olhou de novo para Ilma ela estava muito jovem, usando um vestido rodado florido, o cabelo preso num penteado antigo. Sua irmã mais nova. Sorriu para ela e a puxou pela mão:
- Rápido, Glorinha! Você sabe que mamãe fica furiosa quando nos atrasamos para o jantar.
Soltou-se, abriu a porta e entrou correndo casa adentro. Frederica gritou para Ilma antes de segui-la:
- Mimica, espera!
Assim que entrou na sala, uma mulher surgiu na porta da cozinha, enxugando as mãos num pano de prato enquanto dizia:
- Maria da Glória, isso são horas? Seu pai não vai gostar nada disso!
Aproximou-se devagar, como num sonho ou devaneio, até ser capaz de enxergá-la direito e reconhecê-la. A bisavó materna, que até então, para ela era apenas uma foto pendurada no apartamento de Ilma. Estendeu a mão para tocá-la e, da mesma maneira abrupta e repentina como começou, aquilo se desfez. Não como uma nuvem que desliza ou se dissolve, mas com o choque causado pela resistência de adentrar em outra atmosfera ou dimensão. Seu corpo inteiro tremeu, como se uma onda de eletricidade a atravessasse. 
Quando voltou a recuperar a consciência de quem era e onde estava, deparou-se com o olhar tão conhecido de Ilma e, ao seu lado, o de Milena, ambas inegavelmente preocupadas. Tentou tranquilizá-las para soltar-se das quatro mãos que a amparavam:
- Eu estou bem.
Ilma se afastou primeiro. Virou-se para o casal de idosos que as fitava, perplexos e apavorados:
- Me desculpem, não queríamos assustá-los, é que a minha neta não estava se sentindo bem e acabou entrando sem querer em sua casa.
Milena só soltou Frederica após se certificar:
- Tudo bem mesmo?
A resposta foi um aceno positivo de cabeça, permitindo que finalmente ela pudesse ajudar dona Ilma:
- Seu Ernesto, dona Cida, nos desculpem.
Conversou um pouco com os dois, falou sobre a avó, a mãe, os sobrinhos e a loja de doces antes de se despedir e guiar Frederica e Ilma de volta para o carro. Permaneceram mudas durante o restante do caminho, Milena só voltou a falar quando parou na frente da loja:
- Melhor vocês descerem aqui, vou estacionar ali nos fundos e já volto.
Enquanto Milena abria o portão lateral e entrava com o carro na garagem, deixando-as à sós, Ilma aproveitou para perguntar:
- O que você viu?
Frederica não hesitou:
- Você bem jovem, criança quase. E nossa casa e nossa mãe.
O sorriso da avó continha uma tristeza visível:
- Imaginei quando você me chamou de Mimica. Fazia anos que eu não ouvia o meu apelido de infância.
Fez uma breve pausa antes de continuar:
- Isso nunca tinha acontecido, tinha?
A negação se deu com um aceno de cabeça antes mesmo das palavras:
- Desse jeito não. Foi muito real, parecia que eu estava realmente lá.
Elaborou o pensamento enquanto falava:
- Eu não sei porque.... O lugar, talvez. Ou... Quando eu peguei na sua mão... Não sei.
Respirou fundo antes de concluir:
- Mas de uma coisa tenho certeza: preciso ver a Tei.
Antes que pudessem dizer mais alguma coisa, Milena surgiu e convidou com um sorriso:
- Vamos entrar?


A primeira coisa que atingiu Frederica ao entrar na loja foi a doçura frutada do cheiro. Aspirou profundamente, deliciando-se com o aroma antes de se deixar tocar pela visão igualmente extraordinária das compotas coloridas dentro de centenas de potes de vidro dispostos lado a lado nas estantes rústicas de madeira que iam do chão ao teto em todas as paredes. Logo depois, admirou os doces sólidos, dispostos em caixas também de madeira com tampas de vidro, em cima de duas grandes mesas no centro do estabelecimento. Deixou escapar sem nem perceber:
- Se o paraíso existe, com certeza é assim.
A frase fez Milena sorrir, não só pela espontaneidade, mas por ser exatamente o que pensava sobre aquele lugar. Seu nirvana particular, de serenidade, plenitude e satisfação pessoal em forma de criações comestíveis. Desde criança passava horas e horas ali. Somente a avó parecia compreender - talvez por sentir o mesmo - que não havia para ela prazer maior do que compartilhar os doces que fazia com as pessoas.
Mas ali, naquele instante exato, de repente deu-se conta de que não precisava ser solitário como durante tantos anos acreditara. Uma pequena perspectiva, mínima, imaginária ainda, pareceu surgir e se instalar em seu coração e em sua mente. Era algo que jamais tinha cogitado antes, a possibilidade de dividir aquilo com uma mulher. Teria que ser especial - como a que tinha ali à sua frente.
Pensou várias coisas, nenhuma delas confessáveis ou dizíveis na frente da avó dela, então continuou apenas admirando-a, enquanto Frederica caminhava no meio dos potes e caixas, com um deslumbramento que achou lindamente perfeito. 
Somente quando dona Ilma a chamou se deu conta de que estava ali parada, secando a neta dela com um sorriso de orelha à orelha há... Não fazia ideia de quanto tempo. Apressou-se em corrigir o erro, primeiro recuperando as boas maneiras. Virou-se para Ana que, detrás do balcão do caixa, a observava com franco estranhamento:
- Ana, essa é a dona Ilma, uma amiga da dona Sônia que morou aqui em Barra Alta quando criança e também conhece a minha avó. 
Apesar de não compreender o motivo de Milena, sempre tão bem articulada, estar inédita e inegavelmente atrapalhada com a situação e com as palavras, Ana veio em seu socorro, adiantando-se e estendendo a mão para dona Ilma:
- Muito prazer, dona Ilma, eu me chamo Ana. Sou funcionária da Milena há alguns anos.
Impossível para Milena deixar de corrigi-la:
- Na verdade, a Ana é muito mais do que uma funcionária, ela é quase da família.
Com uma devoção desmedida, que Ilma considerou excessiva, Ana a contradisse: 
- Eu cheguei nessa cidade com uma mão na frente e outra atrás. Não conhecia ninguém, era uma “forasteira”, todos me olhavam com receio e desconfiança. Mas a Milena me deu uma chance de recomeçar a minha vida, me acolheu de um jeito que nunca ninguém fez por mim. Devo tudo a ela.
O silêncio tenso e constrangedor que se seguiu foi cortado por Ilma, numa tentativa de leveza bem-humorada que cortasse o peso que havia se estabelecido:
- Esquecemos de apresentar a minha neta. Fredinha?
Fazendo com que as três se virassem para Frederica, parada inteiramente estática, com os olhos fixos em um dos retratos pendurados na parede ao lado da antiga caixa registradora.

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MÚSICA QUE INSPIROU O CAPÍTULO:

Postado em 12 de agosto de 2019 às 18h.

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