quinta-feira, 25 de julho de 2019

PORQUE HOJE É O FUTURO PASSADO

Escrito entre 07 de janeiro a 23 de julho de 2019. 
Postado de 25 de julho de 2019 a... DEPENDE DA CAMPANHA DE COTAS (mais informações no próximo post)
Postagens 2as e 6as feiras às 18h.


SINOPSE:
“Há mais mistérios entre o céu e a terra do que sonha sua vã filosofia”. A citação de Shakespeare se encaixa perfeitamente em  PORQUE HOJE É O FUTURO PASSADO, o mais novo romance de Diedra Roiz. Nem tudo pode ser explicado pela razão ou pelo nosso limitado conhecimento. Laços de amor, de medo, de revolta, de felicidade nos ligam de maneira inexplicável e é a navegar nesse mar do desconhecido que esse romance nos convida. Uma viagem repleta de emoções, sentimentos e surpresas. Encha-se de coragem antes de embarcar.
Quando pequena Frederica confundia. Na verdade, não sabia distinguir o que era real ou não. Era comum afirmar que seu nome era Glorinha. Isso e o pavor de tempestades, raios e trovões. Não um medo normal, mas um pânico que a deixava fora de si. Segundo a mãe: “Como se estivesse possuída.” A junção de tudo isso fez com que os pais procurassem a ajuda da primeira psiquiatra quando Frederica completou seis anos. Aos vinte e oito anos, continuava acompanhada dos mais variados medicamentos e terapias, sem que aquilo jamais deixasse de persegui-la. Até que um dia, assistindo a um programa de turismo na TV, deparou-se com uma cidade no interior do Rio de Janeiro da qual se lembrava e conhecia muito bem. Mas não naquela vida. Com a ajuda da avó, embarca para Barra Alta do Paraíso disposta a encontrar a verdade e a solução para tudo aquilo.


OBS IMPORTANTES: 
1 - Barra Alta do Paraíso, assim como todos os fatos e personagens, são fictícios.
2 - Não existe nenhum fundamento religioso ou doutrinário neste romance, a intenção é contar uma história, pura ficção e nos divertirmos.
3 - A história já está completa, mas a quantidade de dias de postagem durante a semana segue as metas da CAMPANHA DE COTAS. Se quiser conferir ou contribuir, está na postagem abaixo.


MÚSICAS QUE INSPIRARAM A HISTÓRIA:

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Lembrando que... Copiar o texto e apenas trocar o nome das personagens e/ou detalhes da história não é fanfiction, muito menos adaptação, é plágio. E plágio é crime! Por favor, não façam isso, ok?


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CAPÍTULO 01

Primeiro a luz piscou, iluminando o céu por uma fração de segundo.
Contou:
- 1...2...3...4...5...
Antes de ouvir a trovoada. 
Estremeceu. E correu ainda mais rápido. Completamente encharcada, levantando os pés com dificuldade, no meio da grama alta molhada. 
Um novo raio riscou o céu.
- 1...2...3...
O estrondo veio mais rápido, anunciando que estava cada vez mais perto. 
Avistou a porta de madeira, mas não conseguiu se alegrar com isso. Mesmo assim entrou e fechou a porta atrás de si. 
Nesse exato momento, a música entrou. Como sempre, com a precisão de um relógio Suíço:
“Olho para chuva que não quer cessar
Nela vejo o meu amor
Esta chuva ingrata que não vai parar
Pra aliviar a minha dor...”
Junto com a voz, muito doce, chamando-a:
- Glória... 
Sacudiu a cabeça de um lado para o outro, em negação. Tentou falar, mas não conseguiu emitir nem um som. 
Começou a suar frio, lutando inutilmente contra o corpo petrificado, que não se movia. Sabendo perfeitamente o que se seguiria.
A presença atrás dela... Tão perto que sentiu o hálito, antes mesmo de ouvir o sussurro:
- Glorinha...
As mãos a tocaram, lhe tapando o nariz e a boca e, depois, escorregaram, descendo numa carícia sádica e macabra por seu rosto. 
Gélidas. Cadavéricas. Assustadoras.
Ao redor de seu pescoço, sufocando-a, apertando com mais e mais força.
Em meio às trovoadas, o barulho da chuva caindo no telhado de zinco e a evocação que incessantemente se repetia:
- Glória... Glória... Glorinha... 


Acordou com um grito lancinante.
Demorou menos de um segundo para compreender que o som tinha vindo dela mesma, antes da porta se abrir e a mãe surgir:
- Frederica?
Nem um pouco surpresa.
Aquilo era o normal. Há anos se repetia. Frederica sequer se lembrava da primeira vez que tinha acontecido.
O mesmo sonho, desde sempre.
- Tudo bem, mãe. Eu já acordei.
A preocupação da mãe era visível e compreensível:
- Mas... Não está chovendo.
Ambas sabiam ao que ela se referia. Pois desde bebê, Frederica acordava aos gritos... Sempre que chovia. Só que nos últimos tempos, a tempestade parecia estar dentro dela. 
- Tem piorado? É isso?
Muito mais pela própria tranquilidade do que pela da mãe, mentiu:
- Não. Fazia tempo que não acontecia.
Morar com os pais poderia atrapalhar, fazer com que continuar escondendo a verdade se tornasse complicado, se os anos de prática não a tivessem tornado... Quase uma perita:
- Desde que o Dido se foi, tem sido... Difícil.
Desculpa perfeita, que a mãe aceitou de imediato:
- Ah, minha querida...
Frederica sentiu-se culpada, não por enganá-la colocando a culpa na morte do cachorro, mas por ser a falha na vida perfeita dos pais. O único pesadelo que a mãe tinha.
Já era suficiente, jamais a preocuparia, confessando que a perda do melhor e único amigo não tinha nada a ver com o fato de que agora sonhava, quase todos os dias. Com o cheiro da chuva, o som das gotas, a voz, as mãos e o lento sufocar, tão conhecidos.
As primeiras recordações que tinha, antes mesmo da mãe, do pai e da própria vida. Como se estivesse vivendo uma existência que não lhe pertencia.
Quando pequena confundia. Na verdade, não sabia distinguir o que era real ou não. Algumas vezes, quando estava distraída e perguntavam seu nome, respondia:
- Glorinha.
Isso e o pavor de tempestades, raios e trovões. Não um medo normal, mas um pânico que a deixava fora de si e que fazia Frederica se esconder debaixo das camas, dentro dos armários, cada vez que chovia. Os olhos fechados, as mãos tapando com força os ouvidos. Nas poucas vezes em que tentaram tirá-la desse estado tinha reagido. Lutando, gritando e chutando. Segundo a mãe: “Como se estivesse possuída.”
A junção de tudo isso fez com que os pais procurassem a ajuda da primeira psiquiatra quando Frederica fizera seis anos. Estava completando vinte e dois anos dos mais variados medicamentos e terapias. Sem que aquilo jamais deixasse de persegui-la.


Sozinha em casa, sentada no sofá da sala no meio de uma das tardes intermináveis em que esperava a mãe e o pai voltarem do trabalho, Frederica procurou inutilmente ocupar-se, pois a mente e o corpo entorpecidos pelos remédios que tomava a impediam de se concentrar no que quer que fosse, o que a levava à repetição contínua e incessante de trocar os canais da TV, imersa na culpa de, com 28 anos, ainda ser uma inútil. Não era sem dor e pesar que atravessava os dias, carregando a consciência de que era, sempre tinha sido um erro, uma falha, um peso, a causa de inúmeras abnegações de seus progenitores. Era a sua incapacidade de ser uma pessoa normal e produtiva que impedia que a mãe se aposentasse, que o pai trocasse de carro, que os dois viajassem, saíssem com amigos, se divertissem e aproveitassem a vida de forma tranquila como mereciam. Não que os dois a cobrassem. Pelo contrário, não era amor que faltava na vida de Frederica. Tanto os pais quanto a avó materna, Ilma - de quem inexplicavelmente, era a neta preferida - faziam questão de demonstrar o quanto ela era querida. Apoiavam-na, de uma maneira que Frederica não compreendia, na qual não via o menor sentido. Nem poderia ser de outra forma, pois só o que enxergava ao olhar para si mesma era o fracasso e o desperdício que considerava sua própria vida.
Um relance de olhos para a TV interrompeu a corrente de auto piedade e puxou  a atenção de Frederica para a imagem na tela. A casa antiga com um corredor de altas palmeiras na frente lhe causou uma impressão de reconhecimento profunda, apesar de inteiramente incoerente. Não era a primeira vez que acontecia, mas sem sombra de dúvida, daquela vez a sensação de quase lembrar... Algo que não fazia parte de sua vida - ao menos não da atual - a atingiu com muito mais força do que das outras. 
“Dejà vu”, muitos diriam. Mas Frederica sabia, intuía que não era nem podia ser só isso. A respiração descontrolada, os batimentos cardíacos acelerados, o suor frio deixavam claro o quanto sua reação era real, material, física.
Piscou, tentando inutilmente afastá-la. Fechou os olhos e escutou o que a voz do narrador do programa dizia: 
“ A Fazenda Santa Fortunata* funciona hoje como um hotel histórico de luxo. A atual sede foi erguida em 1853 e nela destaca-se um imponente alpendre, de influência italiana, encimado por um frontão que é sustentado por colunas de madeira trabalhada. Considerada a “Joia de Barra Alta do Paraíso*”, o casarão com mais de 2.300 metros quadrados possui 59 cômodos e 102 janelas.”
Não pensou, foi seguindo única e exclusivamente a necessidade imperativa que estava sentindo, que tateou à procura do celular. Encontrou o aparelho perdido entre as almofadas do sofá. A despeito do tremor que a tomava, a mão foi rápida, moveu os dedos com uma rapidez e agilidade que não lhe era usual. 
Obviamente, a busca lhe rendeu apenas parte da informação que desejava: “Cidade pequena, tranquila e hospitaleira localizada no Vale do Café, Barra Alta do Paraíso* se destacou na cafeicultura do estado do Rio de Janeiro no Século XIX. Memórias do Brasil Colonial ainda podem ser encontradas na Igreja da Matriz e na histórica Fazenda Santa Fortunata*.”
Nesse exato momento, o telefone começou a tocar. Só podia ser ela, a única que pessoa que conhecia que ainda utilizava o aparelho convencional e, exatamente por isso, a mãe de Frederica o mantinha. Levantou-se do sofá e atendeu de imediato:
- Oi, vó.
Não teve tempo de dizer mais nada antes da avó materna perguntar: 
- Você está bem?
A voz de dona Ilma soou absolutamente aflita. Frederica respondeu rápido também:
- Sim, estou. 
O silêncio que se seguiu deixou claro para Frederica:
- Você teve mais um dos seus pressentimentos.
Desde que se lembrava, ou até mesmo antes disso, a avó parecia intuir o que se passava com ela, a ponto de sempre se fazer presente em seus momentos de crise.
- Dessa vez foi diferente.
Incontestável, pois ao contrário de todas as outras vezes, nada havia acontecido.
- Diferente como?
O estranhamento foi idêntico, mais uma coisa a uni-las.
- Eu não sei explicar.
 Frederica fez questão de acalmar a avó:
- Mas eu estou bem. Pode ficar tranquila.
Não que precisasse. Tinha plena consciência de que ela sabia e sentia, sem que houvesse necessidade de falar. Foi de um jeito bem mais leve, quase ameno, que dona Ilma insistiu:
- Não está precisando de nada mesmo? Tem certeza, minha querida?
Frederica aproveitou para lançar:
- Na verdade...
Dona Ilma riu com a mais sincera felicidade:
- Ah, eu sabia! 
A despeito do quanto adoraria satisfazer todas as vontades dela, a neta nunca lhe pedia nada.
- É só...
A hesitação de Frederica levou a avó incentivá-la:
- O quê, Fredinha? 
O apelido carinhoso concedeu à Frederica a percepção do quanto, para ela, a infância não havia terminado. Estava ali, marcada a ferro e fogo, a dependência integral que era a sua realidade.
- Não é nada, é uma bobagem.
A tristeza que a tomou não passou despercebida, a preocupação retornou para a voz da avó:
- Seja o que for, pode me falar.
Uma vez mais, apressou-se em tranquilizá-la:
- Acabei de ver uma cidade histórica num programa turístico e fiquei com vontade de conhecer. Só isso.
A informação deixou dona Ilma aliviada e animada. Afinal, raramente a neta se interessava por algo, seu estado mais habitual era a apatia. Querer conhecer um lugar fora do Rio de Janeiro, para quem sequer saía de casa era mais inédito ainda. Um sinal de progresso, era o que gostaria que fosse. Se dependesse dela, algo que Frederica concretizaria:
- Quem sabe poderíamos ir juntas, só eu e você? Que cidade é? Será que eu conheço?
O apoio da avó era fundamental, pois Frederica não conseguiria nem poderia ir sozinha. Informou com uma empolgação que lhe era completamente desconhecida:
- Se chama Barra Alta do Paraíso*.
Dona Ilma ficou muda do outro lado da linha. Frederica só foi capaz de dar um único significado a ausência de palavras da avó:
- Você conhece?
Demorou um tempo que pareceu uma vida para que ela finalmente respondesse:
- Eu morei em Barra Alta do Paraíso*... Durante boa parte da minha adolescência e toda a minha infância.
Em princípio, Frederica não deu muita importância:
- Então talvez por isso me pareceu tão familiar.
Compreendeu a gravidade pelo tom austero, duro, carregado de pesar que nunca ouvira a avó usar antes:
- Não. Eu nunca te falei. Nunca contei isso para ninguém, porque eu gostaria de poder apagar, esquecer, fingir que nunca aconteceu.
Alguma coisa muito mais forte do que Frederica, que ela sequer tentaria, pois jamais conseguiria explicar, a impeliu a questionar:
- Isso o quê?
Exigiu uma explicação, apesar de desconhecer o motivo, precisava saber:
- O que aconteceu?
De imediato, Ilma reconheceu que não se tratava de uma curiosidade normal, pelo próprio ímpeto com que Frederica a abordara. Não tentou encontrar justificativas na razão, seguiu o que a intuição lhe soprava:
- Não pode ser pelo telefone. Vou até aí para conversarmos pessoalmente.

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MÚSICA QUE INSPIROU ESSE CAPÍTULO E A IDEIA ORIGINAL DA HISTÓRIA:


Postado em 25 de julho de 2019 às 18h.

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CAPÍTULO 02

Em menos de um par de horas depois, dona Ilma chegou. Assim que colocou os olhos nela, Frederica viu que estivera chorando, mas não disse nada a respeito. Mesmo se quisesse, não teria tempo, pois a avó a beijou, a abraçou longamente e depois a puxou pela mão até o sofá, onde se acomodaram lado a lado. Olhando nos olhos neta, Ilma foi direta:
- Você sabe que eu perdi uma irmã, não sabe?
Com um gesto de cabeça, Frederica assentiu. Sabia muito por alto, através de comentários que tinha escutado de forma furtiva ou involuntária. Nunca nenhuma informação concreta lhe havia sido passada. Na verdade, a tia avó era um assunto interdito, que todos na família evitavam.
Arriscou um incerto:
- Ela morreu, não é?
Deixando claro para a avó que ela desconhecia a verdade:
- Presumo que está morta, porque...
Antes de completar, fitou Frederica de um jeito que ela foi incapaz de compreender:
- Glorinha fugiu de casa, há mais de 50 anos e não tivemos mais notícias dela.
O nome. Foi nisso que Frederica se apegou, pois era conhecido demais para passar despercebido ou permitir que ouvisse o resto que foi dito:
- Glorinha?
Dona Ilma olhou profundamente para Frederica enquanto falava:
- Minha irmã Glória... Maria da Glória. Era dois anos mais velha do que eu. Nós éramos muito próximas. Mesmo assim, ela nunca me falou e eu também não desconfiei de nada. Fiquei decepcionada, com muita raiva, me sentindo traída e enganada porque eu realmente acreditava que não havia segredos entre nós. Foi um choque quando ela sumiu, logo após completar dezoito anos, deixando apenas essa carta para os nossos pais.
Estendeu o papel amarelado que retirou da bolsa para a neta, que hesitou antes de finalmente segurá-lo entre os dedos. Além das inúmeras marcas que o tempo havia deixado na missiva, estava rasgada em pedaços cuidadosamente colados com fita adesiva transparente. 
Frederica respirou fundo, buscando ar, antes mesmo que lhe faltasse e, só depois, numa total descontinuidade de tempo, apreendeu as letras, palavras e frases que se formaram em sua mente antes mesmo que as visualizasse, deixando uma única e inquestionável certeza: não era a primeira vez que lia aquela mensagem.
Quando terminou, ergueu os olhos e encontrou os de Ilma fixos nela, como se esperasse algo mais. Se havia, Frederica não estava nem queria estar preparada, muito menos saber o que seria. 
Devolveu a carta que parecia lhe queimar não as mãos, mas dentro do peito, no estômago, nas vísceras. Algo que a fez imediatamente pensar: “Preciso do meu remédio”, apesar da sensação de que não era disso que se tratava, nenhuma substância química resolveria. Teve certeza quando a avó a olhou nos olhos e soprou:
- Glória?
Um chamado que causou uma dor fininha que a puxou para trás, para uma luz que piscou e a cegou em tremores convulsivos, enquanto se repetia, desta vez vindo da presença atrás dela, tão perto que sentiu o hálito, antes mesmo de ouvir o sussurro doce e inteiramente conhecido:
- Glória... Glorinha...
Logo em seguida, os gritos. Mergulhada num transe incontrolável, que a fez tombar e perder o controle do corpo e da consciência completamente, Frederica foi incapaz de perceber que era ela mesma quem os tinha emitido.


Ilma jamais seria capaz de nomear o turbilhão que a tomou ao ver os olhos da neta tremularem e virarem antes dela emitir uma série de gritos que só não eram mais assustadores do que a forma como ela caiu no chão e começou a se sacudir e se contorcer. À primeira vista, para alguém desavisado, parecia algo físico. Uma convulsão, talvez epilepsia. 
Para Ilma não. 
Pois durante anos ela havia pesquisado, procurado e estudado. Apesar disso, não estava absolutamente preparada. Fazia tempo, alguns anos que sabia, não concretamente, claro. Não passava de uma suspeita, uma intuição, uma sensação longe de ser certeza, que muitas vezes a fazia duvidar da própria sanidade. No caminho que percorrera nessa busca tinha presenciado o quanto as pessoas – inclusive ela mesma – são capazes de acreditar em qualquer coisa, por mais absurda e improvável que seja, na ânsia de uma resposta, um consolo, um contato com os entes amados perdidos. 
Mas desde que Frederica nascera ela sentia uma estranha e inexplicável conexão, um amor mais forte até do que o que nutria pela própria filha. 
A neta tinha sido, de muitas maneiras, um bebê difícil. E uma criança mais problemática ainda. Por mais estranho que pudesse parecer, algo que Ilma tinha acabado por nomear de sexto sentido a fez perceber - antes mesmo da primeira  das muitas vezes em que a menina tinha insistido em ser chamada de Glorinha, quando ainda era muito pequena, pequena demais para ser algo inventado por ela - que aquilo vinha de outra pessoa ou de outra vida. Desde então, Ilma esperava por respostas, mesmo sem saber se algum dia as teria.
Óbvio que sua intenção não era, de forma alguma, manifestar aquilo na pessoa que mais amava no mundo. Enquanto se ajoelhava ao lado dela e amparava a cabeça de Frederica para que ela não a batesse no chão arrependeu-se profundamente por ter se deixado levar pelo próprio egoísmo. Fechou os olhos e procurou dentro de si mesma. Uma prece, mesmo sem sentimento ou fé, palavras nas quais pudesse se apegar e acreditar, mas não encontrou nada além do mais profundo vazio. 
Olhou para a neta, inclinou-se sobre ela, as lágrimas caindo em profusão sobre o rosto já menos convulsionado, enquanto a chamava:
- Frederica... Frederica...
De súbito, tão repentinamente quanto havia começado, o acesso parou e Frederica ficou completamente imóvel em seus braços. Antes que Ilma pudesse fazer qualquer coisa, a filha adentrou correndo na sala:
- O que aconteceu?
Ajoelhou-se ao lado das duas e, acariciando o rosto de Frederica, começou a chamá-la com uma suavidade inversamente contrária à preocupação e o nervosismo em que se encontrava. Não era a primeira nem seria a última vez que encontrava a filha inconsciente e caída no chão, por isso sabia perfeitamente que gritar ou sacudi-la não adiantaria, pelo contrário, só serviria para piorar a situação. Deixou escapar um suspiro aliviado ao vê-la piscar e, alguns segundos depois, abrir os olhos.
Sentindo-se inteiramente perdida, Frederica voltou devagar. Bastou um único olhar para as duas mulheres debruçadas sobre ela para saber onde estava. Situar quem era já não foi tão fácil. Precisou ouvir:
- Frederica?
Para afinal tomar ciência de que estava olhando para a mãe e a avó. No entanto, quando seu olhar cruzou com o da mulher mais velha ficou claro que o segredo que agora dividiam jamais poderia ser compartilhado. Por isso, quando a mãe perguntou o que havia acontecido, mentiu:
- Não sei, não lembro de nada.
Absolutamente inconfessável, a verdade era a última coisa que poderia dizer, pois nem para ela mesma parecia coerente, muito menos real. 
Sentou-se devagar, com a mesma tranquilidade com que comunicou à mãe que iria para o quarto descansar e pediu para a avó acompanhá-la.
Assim que Ilma fechou a porta do quarto de Frederica atrás de si, percebeu que algo havia mudado, pois o olhar e a voz da neta estavam completamente diferentes ao fitá-la e ao dizer, com a segurança que antes lhe faltava:
- Eu tinha um anel igual ao seu na minha mão direita. Dobrei a carta e a coloquei em um envelope endereçado aos nossos pais. Deixei o envelope em cima da mesa da sala. Uma mesa de madeira redonda, com uma tolha de renda branca e um vaso de porcelana com flores azuis em cima.
A emoção estava claramente expressa na voz de Ilma:
- Era o vaso preferido da mamãe.
Por mais improvável e impossível que fosse, já não havia dúvida:
- Glória?
Não havia dúvida alguma, a pergunta foi muito mais retórica. Mesmo assim, Frederica faz questão de responder:
- Sim, sou eu.
Abraçaram-se e choraram juntas a saudade e a distância de uma existência inteira. No entanto, não era simples, muito menos fácil aceitar ou compreender. Acima de tudo, uma dúvida última permanecia:
- Mas como? O que aconteceu? Quando você...?
O olhar da neta mudou, voltou a ser o de sempre. Frederica também não possuía as respostas ainda:
- Eu não sei. Sempre estiveram aqui. Essas imagens e lembranças incompreensíveis, mas só agora eu comecei a entender, ou melhor... Eu não compreendo, na verdade acho que enlouqueci de vez.
As lágrimas escorreram, sem que fosse capaz de impedi-las. Um instante em que se deu conta pela primeira vez de que tudo que acreditara durante aqueles 28 anos era baseado em mentira e erro. Em sua suposta insanidade estava contido um universo de lucidez. Ilma pensava o mesmo:
- Não é nem nunca foi loucura. Você sabe e eu sei.
A despeito do medo que a realidade absolutamente inacreditável imprimia, a necessidade de encará-la era imprescindível. Devia isso a si mesma:
- Eu preciso voltar a Barra Alta do Paraíso*.

*Nota sobre o capítulo: Barra Alta do Paraíso é uma cidade fictícia.

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